Traduções, Artigos, Entrevistas

Capítulo Um -A Cidade que Chama-

No outro lado das manchas sujas, havia uma visão de si próprio. Refletida no espelho havia sua própria face, árdua e dura, como o rosto de um cadáver.
Na verdade, acho que eu estou morto, pensou James Sunderland. Meu coração estaria bem se estivesse morto, de qualquer forma. Ele não foi preenchido com um sentimento de perda, ele somente sentia que sua vida não valia mais a pena ser vivida. Ele tinha se tornado indiferente. Trabalho, tempo livre – nada disso realmente importava mais. Até mesmo o forte cheiro de amônia que permeava o ambiente pequeno e sujo não podia chamar a atenção de James. Os sanitários sujos, cobertos por uma substancia amarelo-musgo, o chão molhado e pegajoso que impregnava as solas de seus sapatos, nada disso trouxe um lampejo de emoção. Ao contrário, o único substituto plausível para ele seria realmente um zumbi.

“Mary… você poderia realmente estar nesta cidade?” Ele perguntou para o James do espelho. Ele tinha dúvidas quanto ao acidente. Ao menos ele tinha realmente acontecido? Mas…

Com as suas mãos apoiadas nas laterais do lavatório, ele olhou para o espelho. Apesar de sua atitude, ele se sentiu um pouco revitalizado. Ele balançou a cabeça e afastou a franja do rosto, como se despertasse de uma ilusão. Ele sabia que era realmente verdade pois ela havia atavés de uma carta.

Ele saiu do lugar sombrio para o céu nublado. O banheiro público não se comparava com a claridade que o aguardava do lado de fora. Um vento úmido batia no rosto de James. Do outro lado do estacionamento estava o vasto Lago Toluca, a névoa dançava sobre a sua superfície e se estendia por toda a paisagem.

Nos meus sonhos inquietos,
Eu vejo aquela cidade.

Silent Hill.

Você prometeu que me levaria até lá novamente, algum dia.
Mas você nunca o fez.

Bem, eu estou sozinha lá agora…

No nosso “lugar especial”
Esperando por você…

Não havia dúvida alguma de que Mary havia enviado aquela carta, ela estava escrita com sua letra característica. Três anos atrás, ele havia passado um dia inteiro com ela nessa pequena cidade, e agora James estava aqui novamente. Sozinho. Seu carro está estacionado em uma vaga do pequeno estacionamento, com o motor desligado. Mesmo estando em perfeitas condições, não seria de muito uso de qualquer forma. A rodovia era o verdadeiro problema. O túnel ao final do estacionamento que levava a cidade de Silent Hill, estava bloqueado devido a construções. Não havia nenhum caminho através da pesada, inquebrável cerca que bloqueava a entrada. Não havia outra escolha além de ir por outro caminho.

Após recolher o mapa da cidade de dentro do seu carro, James desceu uma escada na extremidade do estacionamento. A cada passo que dava, a neblina se tornava mais densa, e quando chegou a costa do lago, seu campo de visão inteiro foi envolto em branco. Mais e mais James começava a ter uma sensação não-natural de sufocamento. Entretanto, mesmo nessa atmosfera opressiva, a sua mente estava ocupada por pensamentos sobre Mary e a carta. Em algum ponto distante, um cachorro latia como louco, mas ele o ignorou. Ele afundou-se em um estado de espírito grave, pisoteando o chão enquanto continuava a andar.

A carta certamente possuía o nome de Mary escrito no envelope. Que idéia tola, impossível. Sua testa franziu e ele sacudiu a cabeça em descrença. Não podia ser verdade.

Porque a sua mulher, Mary, havia falecido três anos atrás. Devido a sua doença…

Parecia com algum tipo de piada cruel, elaborada por alguma pessoa particularmente maligna. Uma piada criada para zombar James mesmo ele ainda estando de coração partido e sofrendo. Talvez fosse um de seus vizinhos? Ou talvez um de seus colegas de trabalho? De qualquer modo, depois da perda de sua mulher, James passou a beber e começou a disfarçar sua tristeza com explosões de raiva. Isso afetou todos ao seu redor a ponto de seus colegas de trabalho não quererem mais se meter com seu comportamento mal-humorado. Pouco tempo depois, ele passou a ser tratado como um arruaceiro. Por esse motivo, ele podia facilmente ver como alguém poderia guardar rancor contra ele.

Se extendendo ao redor do lago, o fim do caminho estava cercado por árvores e pela névoa densa. Mesmo depois de apenas alguns metros, ele não podia ver o lugar de onde ele tinha acabado de vir. No centro do vale, a neblina também escondia o magnífico cenário do Lago Toluca, mas James não poderia se importar menos. Ele não veio aqui pela paisagem. Enquanto ele caminhava, tudo que ele podia ver era o rosto de Mary. Mesmo se James ainda tivesse suas dúvidas a respeito da carta, ela, junto com as memórias de sua amada esposa, era o que o havia trazido tão longe.

Não era supresa então que, com esse tipo de pensamento em sua cabeça, James se encontrasse desejando um milagre. Ela realmente havia morrido três anos atrás? Ou ela tinha morrido e revivido de alguma forma? Talvez, depois do funeral, e depois que os funcionários e parentes deixaram a sepultura sozinha, Mary tivesse acordado e começado a bater desesperadamente a tampa do caixão? Mas se isso fosse verdade, por que ela teria esperado três anos para entrar em contato com ele? Ele considerou a possibilidade dela ter tido algum dano cerebral devido à asfixia e sofrido perda de memória como resultado. Os funcionários teriam fugido aterrorizados ao ver uma pessoa supostamente morta se mover. Deixando ela sem idéia de quem ela era, ou o que ela estava fazendo ali – fazendo com que ela vagasse sem rumo por algum lugar. Ou talvez, ele pensou, ela poderia ter sido sequestrada por algum coveiro doente…

James cerrou seus dentes, frustrado. O barulho das folhas mortas espalhadas pelo caminho sendo esmagadas aumentava enquanto ele pisava descuidadamente sobre elas. Era irritante como sua imaginação continuava criando um cenário desagradável após o outro, não importa o quanto ele se esforçasse para impedí-la. De qualquer forma, havia uma coisa que ele não tinha sido capaz de provar: se Mary estava ao menos viva ou não, em primeiro lugar. Ainda assim, James descobriu que ele tinha medo de encontrar a resposta para essa pergunta.

Mas se ela realmente estivesse viva todo esse tempo e não tivesse tentado entrar em contato comigo até agora, talvez ela estivesse tentando me evitar? E se ela tivesse fugido e estivesse vivendo com outro homem…
Esses tipos de pensamentos também passaram por sua mente. O coração das mulheres era tão difícil de se entender. Por um momento, ele sentiu uma onde de ódio queimar, mas ele logo se afogou em seu humor melancólico. Mais do que tudo, ele queria ver Mary de novo, e mais do que qualquer outra coisa, ele temia esse encontro. Forçando sua hesitação a recuar, James apressou-se em mover um pé à frente do outro, como um sonâmbulo.

Subitamente, James parou e prendeu a respiração. Logo a frente dele, uma forma humana apareceu na neblina.

Poderia ser Mary?

Naturalmente, não era a esposa de James. Olhando mais de perto, ele encontrou uma mulher de cabelos negros, parada e observando, pensativamente, uma lápide. Sem nem mesmo perceber, James havia entrado em um cemitério. Sentindo a presença de James, a mulher soltou uma exclamação de surpresa e virou-se para encará-lo. Ele a cumprimentou.

“Desculpe, não pretendia assustá-la. Estou procurando por uma cidade chamada Silent Hill. Você se importaria em me dizer se eu estou indo na direção correta?”

“Ci-cidade? Você esta indo para a cidade?” A mulher inclinou a cabeça em dúvida, a surpresa em seu rosto era ainda maior do que quando percebeu a presença de James. Embora ela ainda tivesse traços jovens, negros, pesados círculos penduravam-se como sombras sob os seus olhos.

“Sim”, James respondeu.

A mulher hesitou por um momento, então respondeu: ”Sim, este é o caminho correto. Eu sei que está um pouco difícil de se ver… Você sabe, por causa da névoa, mas…Há somente a rua principal, e-então você não pode realmente se perder.”

“Obrigado.”

“Mas…”

“Sim?”

“Seria melhor… Se você não fosse adiante”.

“Hã?”

“Humm… Porque… Aquela cidade é um lugar estranho. Eu não posso realmente explicar muito bem, mas… É perigoso lá.”

“Só por causa de toda essa névoa?”

“B-bem… Não é só isso. É só…é.”

Em que ela deveria estar pensando para que suas palavras soassem tão graves? Não parecia que ela iria dizer algo mais, então, parecia inútil tentar receber alguma resposta dela. “Certo. Eu tomarei cuidado.”

“Ei, eu não estou inventando isso!” A mulher gritou assim que James começou a se afastar. “Eu vim para essa cidade por que eu preciso encontrar a minha mãe! Eu não há vejo a muito tempo. E… E essa ci-cidade…” Sua voz estava histérica.

James não estava certo sobre o que tinha feito a mulher, que mal havia falado por sussuros, gritar daquele modo. Obviamente, ela tinha certos… Problemas com os quais lidar. Então, novamente, a mesma coisa poderia ser dita sobre James. Melhor não se preocupar com aquilo no momento. Isso não queria dizer que James não acreditava no que a mulher havia dito, mas, se ele realmente queria ver Mary, ele teria que continuar apesar dos perigos.

Deixando a problemática mulher para trás, James passou pelo cemitério e encontrou seu caminho novamente por uma estrada que se estendia pela floresta próxima ao lago. Novamente, seus pensamentos retornaram para Mary. A sua carta dizia “Eu espero você no nosso ‘lugar especial’”, mas o que ela queria dizer com isso? Ele procurou entre todas as suas preciosas memórias, enterradas, de três anos atrás.

Os dois locais que mais se destacaram foram o parque e o hotel. Ele lembrou de como os dois haviam gasto uma grande quantia de dinheiro para alugar uma suíte de luxo, e como haviam pedido comidas extravagantes, do serviço de quarto. Certo dia, enquanto passeavam pela cidade, eles encontraram o parque situado no lago. O casal havia se sentado em um banco, e juntos, assistiram os barcos a vela irem e voltarem sobre as águas cintilantes. Eles acabaram ficando o dia inteiro lá, somente apreciando a paisagem e a companhia um do outro. A questão permanecia: Mary estaria esperando por ele no parque ou no hotel?

Pouco tempo depois, o som das folhas mortas esmagando-se sob os seus pés parou e o caminho de terra deu lugar a uma estrada de asfalto velho. A estrada levava a um túnel que passava sob a rodovia, que teria tornado a viagem mais rápida e mais fácil se apenas não tivesse sido fechado.James continuou seguindo a estrada, que se curvava e seguia ao longo do rio, finalmente chegando a rua principal da cidade. James pegou o seu mapa e o examinou. Aparentemente, ele estava na Sanders Street, que se localizava na borda leste da cidade. Se ele continuasse seguindo a oeste daqui, deveria chegar ao centro de Silent Hill.

Os passos de James ecoavam ameaçadoramente enquanto ele seguia abaixo a rua vazia. Na verdade…seus passos eram o único som que ele escutava. Nenhum dos ruídos normais de uma cidade movimentada pareciam estar presentes. Claro, era uma cidade bem pequena, mas esse tipo de silêncio não parecia natural. E com o local coberto com tanta névoa, seria muito difícil conseguir ver algo caso alguém tentasse dirigir através da cidade. Fazia sentido que as escolas e o comércio estivessem fechados, e que as pessoas estivessem escondidas em casa, esperando o tempo melhorar. Sendo assim, suas chances de conseguir um táxi pareciam pequenas. Pelo lado bom, mesmo que tivesse que andar, o parque ficava localizado a apenas meia hora de distância. Entretando, ele ainda estava preocupado com Mary e esperava que, onde quer que ela estivesse, ela continuasse lá, assim toda essa jornada não seria em vão.

Quando James se aproximou da intersecção na Rua Lindsey, ele avistou algo perturbador: Uma larga mancha de sangue corria por toda a superfície da calçada como se tivesse sido pintada por uma escova gigante. James recuou, em choque. Avistar algo tão intimamente ligado à morte lhe abriu feridas emocionais. Ele ficou sem reação por um momento, com os olhos fixos na mancha vermelha. Pela aparência da mancha, parecia ser fresca. É evidente que um crime terrível foi cometido sob o manto da neblina, mas não importava para onde ele olhasse… Ele não viu vestígios de uma vítima. Não parece que alguém tenha sido levado para um hospital… Se fosse esse o caso, a polícia teria interditado essa área…

Seus pensamentos foram interrompidos pelo som de passos, como pés descalços batendo contra a calçada. Olhando adiante, James avistou uma figura humana borrada saindo das profundezas do nevoeiro.

“Hey!”

James começou a perseguí-la. Desde que perdeu a sua esposa, ele sempre ficou indiferente ao resto do undo, e por mais que ele quisesse apenas ir embora e esquecer que viu a calçada manchada com sangue… Isso era algo que ele simplesmente não poderia deixar passar.Não há maneira de ele se convencer a abandonar alguém que provavelmente estava morrendo, dada a quantidade de sangue deixada para trás nos rastros da pessoa. Este cara provavelmente é algum tipo de bandido que entrou em uma briga e agora estava vagando pela cidade em um estado de semi-consciência e sangrando muito. E, aparentemente, ele também estava sem os seus sapatos…

Não importava o quanto James gritasse ou chamasse por ele, a criatura em fuga não iria parar. Quem sabe a pessoa não o confundiu com o seu agressor? Apesar do andar cambaleante da figura, ela se movia de forma rápida, e a distância entre os dois aumentava ainda mais com cada passo. Conforme ele fugia, um rastro de sangue salpicado era deixado na estrada atrás deles, indo do norte ao final da Rua Lindsey, então nitidamente virava à direita. A trilha então seguiu na direção nordeste com a Nathan Avenue – a estrada principal que levava para fora da cidade.James foi parar em uma estrada de terra, alinhada em ambos os lados com um emaranhado de cercas de arame farpado, como um canteiro de obras, levando a um túnel semi-acabado, como o túnel que ele cruzou um pouco mais cedo. Naturalmente, não havia um trabalhador sequer à vista. A figura que ele estava seguindo estava longe de ser encontrada também.

De repente, um estrondo ecoou da entrada do túnel. Embora esse lugar claramente tenha sido construído para ir além dos limites da cidade, a única coisa que bloqueava o caminho era um pedaço de madeira cravado na entrada do túnel para formar uma barricada rudimentar – através da qual era muito fácil de passar. No chão havia um pequeno rádio portátil. Ele provavelmente pertencia a algum dos trabalhadores da construção civil, para que ele pudesse ouvir música enquanto trabalhava. Mas, por qual razão ele iria deixar o rádio para trás?

James apertou o botão de “ligar”. Instantaneamente, o rádio soltou um barulho ensurdecedor que não apenas feria os seus ouvidos, mas que também lhe causava uma sensação estranha. Naquele momento, uma idéia irracional mas compulsiva ecoou por sua mente: Eu não toquei no volume… Mas a estática continua aumentando…

O som dos pés andando sobre os escombros e os destroços pareceu se intensificar. Das profundezas do túnel surgiu uma figura impressionante. James começou a se preocupar quando se tornou claro que esta provavelmente era a coisa que o trouxe até aqui… Mas, o que quer que essa “coisa” fosse, certamente não era humana. Os braços da criatura pareciam ser fundidos ao seu corpo com uma carne podre, mosqueada, e lhe faltavam olhos, nariz, boca, ou qualquer outra coisa que poderia lhe identificar como uma “pessoa”. Ela cambaleou para a frente, como se estivesse embriagada, quando a parte superior de seu corpo se contorcia sem parar em uma estranha dança. Ela não parecia estar machucada, então como ela deixou uma trilha de sangue fresco? É evidente que este mostro se contorcendo não era a vítima, mas quem desferiu o ataque.

Com todo o seu corpo trêmulo, James começou a recuar lentamente. Aterrorizado, ele estava mais preocupado em não deixar a criatura se aproximar dele. Ele quis escapar. Ele quis fugir. Seria tão fácil apenas dar a volta, subir de volta pela barricada e fugir… mas ele não fez isso. Ao se virar, ele arrancou um pedaço de madeira da barricada e, cheio de vigor e raiva, se preparou para usá-lo como arma. Por que ele escolheu fazer algo tão irresponsável e estúpido como seguir a coisa? Nem ele mesmo sabia. Ele apenas não poderia deixar aquela criatura retorcida viva. Ele não poderia sair e deixar um monstro perigoso perambular por aí e causar mais danos. Entretanto, a verdadeira razão para ele odiar essa coisa não tem nada a ver com qualquer senso de justiça: foi o nojo.

Reunindo todas as suas forças, James desferiu um golpe com o pedaço de madeira, mirando a cabeça do monstro, que se contorcia. A criatura recuou e, apesar de não ter uma boca, soltou um penetrante grito agudo. Repetidas vezes ele desferiu um golpe até perder a conta de quantas vezes ele atingiu a criatura, e seus braços ficaram doloridos e cançados. Gravemente ferido, o monstro caiu no chão, repousando o que deveriam ser os seus braços sobre destroços espalhados. Apesar da surra que levou, a criatura continuava a se contorcer no chão, até que finalmente ficou muda.

“Está morta…?”

Por segurança, James cutucou a criatura com o pedaço de madeira. Não havia sinal de vida. Agora que ela estava no chão, sobre uma poça de sangue, se assemelhava muito mais a uma lesma pegajosa do que a um ser humano. O seu rosto inexpressivo foi esmagado com muita força, e estava vazando fluído espinhal para toda a parte. Não havia dúvidas de que a terrível criatura estava morta.

“Que diabos foi aquilo?”

Não importava o quanto ele a observasse, ou o quanto ele tentasse racionalizar a existência daquele monstro. Nada fazia sentido. Poderia ser um tipo de cobaia que escapou de um laboratório…? Ele brincou com possibilidades similares em sua mente. Ele deu o seu máximo para tentar acreditar nas hipóteses. James deixou de lado as suas suposições inúteis e jogou fora o pedaço de madeira ensanguentado. Ele estava prestes a fazer o caminho de volta pela barricada e deixar o túnel, quando novamente o rádio chamou a sua atenção. Ele encarou aquilo com desconfiança. Quando a criatura surgiu, o rádio estava emitindo um ruído, mas agora que ela estava morta, o rádio ficou em silêncio.

De repente, ele começou a fazer barulho novamente. James olhou ao redor, preocupado com a presença de outro monstro. Mas sôou… diferente, por algum motivo. Ao ouvir cuidadosamente, ele quase não conseguiu ouvir a voz de uma mulher. James suspirou. Mary! Aquela era a voz da Mary! Ao virar-se, ele pegou o rádio e ouviu mais de perto. A voz de Mary o chamava pelas rajadas de estática:

“Ja… Estou… qui…. Venha para o… Wo…si…. mentos… algo… pa…você.. .sa… Jam…”

James segurou o alto-falante do rádio contra o seu ouvido, ansioso para ouvir mais. Mas a voz de sua esposa desapareceu, e tudo o que ele conseguia ouvir era a estática. Ele bateu no rádio e apertou todos os botões, mas não importava o que ele fizesse, a voz não disse nada mais. Quando desistiu, ele colocou o rádio no bolso da jaqueta, deixando-o ligado por precaução. Quem sabe Mary não conseguiu chegar até a Torre de Rádio da cidade e estava tentando contactá-lo? Talvez a real intenção por trás da carta era trazê-lo suficientemente perto da cidade para conseguir esse sinal. Mas se fosse verdade, então por que ele não conseguiu o sinal no rádio do carro no caminho para cá? E como este rádio quebrado idiota pode ser a única coisa a captar o sinal?

James refez o caminho até voltar à cidade, então ele seguiu na direção do prédio de apartamentos Woodside. Quando Mary falou com ele pelo rádio, ele achou que sequer se lembraria do nome do prédio. Entretanto, havia um pequeno problema: ele não tinha idéia de onde era o prédio. Ele olhou o seu mapa de Silent Hill, mas o prédio não estava destacado em lugar algum. Com um pouco de sorte, ele abordaria algum dos residentes da cidade logo, então ele poderia se informar sobre o caminho certo.

“Hey, você aí!”, gritou ele para chamar atenção, e então correu para tentar encontrá-los.

Entretanto, ele ficou estático quando um barulho familiar veio do bolso de sua jaqueta. O rádio havia voltado a emitir o som de estática. Infelizmente, sua voz chamou a atenção deles, e as figuras desfocadas o miraram.

Conforme elas se aproximavam pela neblina, tornou-se mais e mais claro que algo estava muito errado. Enquanto elas andavam, se torciam e contorciam da forma mais não-natural possível. Eram monstros. Exatamente como o que ele matou mais cedo. Um grupo destas coisas disformes teria escapado de um laborátório em algum lugar?

Até agora, apenas o ato de observar as criaturas se contorcerem em agonia lhe trouxe de volta os mesmos sentimentos de ódio e nojo. Ele queria destruí-las, esmagar as suas cabeças como fez com a outra – qualquer coisa que pudesse fazer para acabar com a existência daqueles monstros terríveis. De repente, James percebeu que ele havia deixado a sua “arma” para trás, o pedaço de madeira. Por um momento, ele pensou em usar os próprios punhos, mas só de pensar em tocar aquela carne repulsiva das criaturas lhe trouxe calafrios à sua espinha. O mais importante é que ele ele estava em desvantagem: eram dois contra um. Talvez dessa vez fosse melhor evitar esse conflito desnecessário.

Após tomar a decisão, James virou-se e correu em direção ao Sul, antes que as criaturas pudessem se aproximar. Ele correu para a Rua Katz, uma estrada que ia do Leste para o Oeste pelo centro da cidade. Então, ele fez um desvio para a Rua Neely.Os movimentos dos monstros, que se aproximavam aos trancos, pareciam deixá-los mais lentos, e a cada movimento de James eles pareciam mais e mais distantes, até desaparecerem na névoa. Enquanto corria, James percebeu que quanto mais longe ele ficava dos monstros, mais suave era o som emitido pelo rádio. Poderia ser… uma resposta à presençã daquelas criaturas? Como um rádio quebrado poderia fazer algo assim? Qualquer que fosse o motivo, se pudesse ajudá-lo a se proteger, definitivamente valia a pena tê-lo por perto.

Entretanto, embora os monstros tenham ficado para trás e não pudessem ser vistos em lugar algum, o rádio ainda não estava totalmente em silêncio. Ele correu reto através da intersecção da Rua Martin e Rua Katz, passando o cruzamento na rua Neely logo depois. Ele apenas tinha que continuar indo em frente. Agora, tinha voltado as suas atenções para a rua Munson pois, como ele atravessou a Rua Neely, ainda terminou por ver uma outra criatura vindo do meio da estrada em sua direção.

“Que Diabos!?” James gritou, incrédulo. Estas coisas simplesmente estava vagando por todos os lugares. Elas tomaram a cidade ou algo assim? Agora a rua Katz parecia também estar ocupada por essas criaturas sem braços, deixando-o sem um lugar para ir. James ficou paralizado de horror e ele só conseguia olhar para as sombras distorcidas, dançando no nevoeiro. Mesmo se ele tentasse correr mais uma vez, não haveria como ele voltar para a Avenida Nathn. Nesse momento de desespero, se lembrou do alerta que a mulher no cemitério lhe deu. Naquele momento ele não havia levado a sério, mas agora…

Deveria tê-la ouvido. Deveria ter dado meia volta e ido embora quando teve a chance. Mesmo após encontrar o primeiro monstro, deveria ter simplesmente ido embora dessa cidade maluca. Mas ele não poderia. Essa busca desesperada por Mary… ele simplesmente não poderia desistir. Apenas a possibilidade de vê-la novamente, mesmo que só uma vez, já era suficiente para fazê-lo continuar, mesmo agora que as coisas estavam se tornando mais perigosas. Ela era o motivo para, independentemente de qualquer coisa, para ele continuar vivendo. Mesmo que significasse arriscar a sua vida. Ele não poderia apenas ficar aqui e morrer.

“Para o inferno, então!”

James seguiu em frente, rezando para que encontrasse uma brecha entre os monstros, ou conseguisse empurrar uma das criaturas e passar por elas. No momento em que ele avançou sobre o primeiro corpo retorcido, a névoa pareceu mudar de cor diante de seus olhos, e a sua boca e nariz começaram a queimar com um cheiro podre, atordoante. Tendo perdido o foco momentaneamente, ele correu reto, na direção de um dos monstros, e estatelou-se na outra direção, batendo com força na calçada. Ele foi subitamente tomado por uma tosse violenta e a sua boca estava dormente, como se ele tivesse recebido uma anestesia. Era veneno. Agora essas criaturas vis estavam vomitando veneno no ar. Como diabos elas poderiam cuspir veneno se elas não tinham bocas?

Conforme outro monstro tropeçava em sua direção, ele ergueu os olhos apenas para ver que o corpo da criatura estava dividido por uma rachadura vertical, indo de seu pescoço até a sua cintura – suas obscuras e molhadas entranhas estavam totalmente visíveis.

A criatura inclinou-se para trás, como se estivesse respirando a partir de uma segunda boca bizarra. James sentiu que ela estava se preparando para lançar mais de seu terrível veneno ácido, mas ele não iria ficar por perto para ver isso.

Balançando a sua perna como um martelo, chutou as pernas do monstro com toda a sua força, atingindo os pés do monstro, deixando-o se contorcendo na calçada. A sua falta de braços fazia com que ele se movesse inutilmente, tentando se levantar novamente.

Levantando-se rapidamente, James começou a chutar a criatura enquanto ela estava distraída.

“Apenas morra!”

Suas botas pesadas romperam facilmente a pele macia da criatura, deixando-na coberta por um fluído corporal vermelho e pegajoso. O monstro gritou e teve convulsões com cada chute. Contorcendo-se, começou a bater as pernas violentamente, conseguindo rastejar-se pelo chão. No começo James achou que a criatura estava tentando fugir, mas em um rápido momento eme se virou em uma curva em U e atirou-se diretamente para cima dele. Ela estava tentando contra-atacar.

James começou a se sentir muito doente. Todo o seu corpo tremia e ele estava começando a se sentir tonto, sem dúvidas por causa do veneno. Isso era ruim. Se ele não se mandasse dali logo… ele não estava certo de quanto tempo ele duraria. Ele deu um passo trêmulo para trás e as suas costas bateram em uma cerca de arame, fazendo barulho. Espera… poderia ser um portão? James se virou e viu que, de fato, era um portão. Ele o empurrou e correu para o outro lado. Em seguida, fechou o portão e o trancou, colocando uma barreira entre ele e o monstro que se contorcia.

Atrás dele estava um edifício de apartamentos com três andares. Suas tábuas velhas e pintura gasta refletem a sua idade. Junto à porta de entrada havia uma placa igualmente velha que dizia:

“Apartamentos Woodside”

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s