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Capítulo Dois -Alguém está à Espreita no Apartamento-

Após escapar com êxito para um locar seguro, ao menos por enquanto, James se sentou no chão para recuperar o fôlego. O que teria acontecido se ele não tivesse escapado pela cerca? A grade parecia tremer de medo enquanto o nevoeiro dançava sobre o vento pesado. Os monstros pareceram sentir que haviam perdido a sua presa, e então desistiram e foram embora. Não havia nenhum corpo se contorcendo que pudesse ser visto.

Assim que seu coração desacelerou e o seu suor frio cessou, James finalmente ficou em pé. Ele ainda sentia as suas bochechas um pouco entorpecidas, mas no geral, ele não se sentiu mal como havia acontecido mais cedo. Ao menos, ele não teria mais que se preocupar em morrer envenenado. Ele só estava preocupado. Apartamentos Woodside… O que o esperava no outro lado da porta? No início, parecia uma sorte incrivelmente boa ter esbarrado neste lugar, mas, e se fosse Mary que o tivesse guiado até ali…?

Próximo a entrada do apartamento, havia uma lixeira velha, cheia de lixo acumulado do dia-a-dia dos residentes. James caminhou até ela e abriu a tampa. Ele retirou uma folha de um pacote de jornais velhos. Antes de entrar, ele precisava se limpar um pouco, se Mary realmente estivesse viva e o esperava ali, ele não queria encontrá-la com as botas tão sujas. Com o velo jornal, ele limpou o sangue do monstro o melhor que podia.

Ele avistou a manchete sensacionalista: “HOMEM COMETE SUICIDO COM COLHER!” Curioso, James tomou um olhar mais atento ao jornal. Havia sido impresso em o que aparentava ser uma revista de fofocas local. Ele não tinha a certeza do porque, mas aquilo havia apreendido a sua atenção.

A polícia anunciou hoje que Walter Sullivan , suspeito do assassinato brutal dos irmãos Billy e Miriam Locane em Silent Hill, no fevereiro passado, cometeu suicídio. Ele foi preso pelos assassinatos no dia 18 deste mês e foi encontrado morto na manhã do dia 22.De acordo com o pronunciamento oficial, Sullivan se matou usando a colher que acompanhava sua refeição noturna e atacou o lado esquerdo do seu pescoço, próximo a artéria carótida. A colher entrou pelo menos dois centímetros em seu pescoço e o sangue escorreu pelo ferimento. No momento em que os policiais o encontraram, ele já estava morto. Colegas da cidade natal de Walter Sullivan, Pleasant River, disseram: “Ele não parecia o tipo de cara que sairia por ai matando crianças. Ele sempre foi muito quieto na escola, mas ele era uma boa pessoa. Eu o encontrei uma vez, logo antes da sua prisão, ele disse um monte de coisas esquisitas, ‘Ele está tentando me matar. Me punir. O demônio vermelho. Aquele monstro. Por favor me perdoe, eu o fiz… mas não fui eu!’ … Agora que penso nisso, ele foi um pouco estranho”

Quando terminou de ler, James esfregou o pescoço. Por que ele estava tão fascinado sobre isso? O método do suicido parecia uma maneira tão lamentável de se morrer, mas ele era apenas mais um prisioneiro. Este era um evento comum. Coisas como essa ocorriam o tempo todo. Entretanto, as palavras impressas nas paginas pareciam queimar na sua mente, e ele não conseguia parar de pensar nelas. O demônio vermelho… uma vaga imagem apareceu um sua cabeça…

Ele balançou a cabeça. O que isto tinha a ver com Mary? Pedaço de lixo estúpido. Usando a pagina amassada do jornal, ele continuou limpando as botas até que estivessem razoavelmente limpas, e então ele se aproximou da porta da frente do apartamento. As dobradiças rangeram quando ele empurrou a porta e os ecos de seus passos preencheram o local quando ele entrou.

Estava quase completamente escuro. Devido ao tempo ruim, mal havia luz dentro da sala e não havia nenhuma lâmpada acesa. O gerente devia ter desligado a energia. Depois de um tempo, os olhos de James se acostumaram à escuridão e ele foi capaz de ver a estreita sala um pouco melhor. A esquerda, estava o que parecia a porta de trás, e para a direita havia uma escadaria que desaparecia na escuridão. Ele cuidadosamente adentrou na sala escura. Todas as portas no recinto estavam trancadas,nenhuma delas se moveu um centímetro.

“Olá? Tem alguém aqui?”

James bateu com força nas portas, mas ninguém atendeu. Parecia que não havia outra escolha a não ser tentar os andares superiores. James subiu as escadas e ficou alividado em encontrar uma porta no segundo andar que estava destrancada.Ao voltar para o corredor, ele notou que ele estava ainda mais escuro do que antes. O corredor inteiro estava quase completamente da cor de piche como se fosse uma noite morta, e a única parcela de luz vinha de uma janela no lado norte. Parecia que esse lugar não era dotado de mais luz do sol do que um prédio em uma cidade populosa.

“Mary!” James gritou, na escuridão. “Sou eu, James! Eu estou com a sua carta e vim para encontrar você!”

Não ouvindo qualquer resposta, James começou a caminhar pelo corredor. Uma a uma, ele batia nas portas da parede sul perguntando, “Vamos, abra! Eu estou procurando por uma mulher chamada Mary, você a conhece?”

Mesmo quando ele girava e sacudia as maçanetas, nenhuma das portas abria. Por que ninguém estava respondendo? James estava começando a se sentir frustrado. Esse lugar não deveria ser desabitado – ele certamente deveria ter visto sinais de vida em algum lugar. Mas ele não podia ouvir passos em lugar nenhum. Os Apartamentos Woodside estavam mortalmente silenciosos, como se tivessem sido abandonados. James continuou pelo corredor, com o piso de madeira estalando a cada novo passo. Quando ele chegou ao apartamento mais ao leste, o apartamento 205, ele se surpreendeu ao girar a maçaneta e a encontrar destrancada. Ele cautelosamente espiou o interior.
“Me desculpe?” James disse em uma voz baixa. Tendo perdido a paciência com a ausência de resposta, ele não esperou muito tempo antes de entrar sem permissão. As luzes do apartamento estavam apagadas, mas havia uma única fonte de iluminação. Por trás dessa luz estava uma sombra humana que James tomou pelo habitante do apartamento.

“Err, desculpe me intrometer desse jeito. Eu estou procurando por alguém. Você viu…” James se calou. Enquanto ele se aproximava, ele viu que era inútil tentar falar com a “pessoa”. Vestindo apenas uma blusa, saia e um pequeno casaco, a figura o encarava de volta com uma face em branco. Era apenas um manequim de costura. A mulher que vivia aqui devia trabalhar como uma costureira em casa. Mas… algo sobre as roupas que o manequim estava usando parecia esfaqueá-lo direto no coração.Então ele percebeu subitamente – aquelas era as mesmas roupas que Marry estava usando na foto dela que ele carregava. Isso poderia significar que ela ainda estava por perto….? As esperanças de James cresceram com esse pensamento.

A luz que iluminava o apartamento vinha de uma pequena lanterna presa à um laço, que estava pendurada no manequim, como se fosse um colar. James pensou na situação. Talvez o morador estivesse usando o manequim para iluminar o lugar por causa da queda de energia elétrica? Ele estava posicionado de uma forma que iluminasse o lugar inteiro… Mas ele não tinha idéia de por que alguém deixaria a luz acesa e a porta destrancada enquanto não estivesse por perto. Vendo que a pessoa não estava ali no momento, James decidiu “pegar emprestado” sua lanterna. Ele tirou a lanterna do manequim e prendeu próxima de seu pescoço. Ao menos agora ele poderia encontrar os apartamentos mais facilmente. Ainda assim, ele se sentia um pouco culpado. Primeiro invasão, e agora roubo? Ele realmente não tinha nenhum propósito maligno – ele só queria encontrar Mary.

Deixando o quarto 205 para trás, ele continuou pelo corredor que se extendia do norte ao leste do primeiro corredor. Imediatamente depois de virar uma das esquinas, ele parou. Ruídos de estática começaram a emanar do rádio no bolso de seu casaco. A luz da lanterna iluminou o que parecia ser uma figura nua de pé no meio do corredor.

Só que ela não parecia ter uma cabeça. Um manequim…? James pensou por um momento que talvez o manequim do 205 estivesse furioso com ele por ele ter roubado sua lanterna e o tinha perseguido até aqui para pegá-la de volta. O pensamento trouxe um sorriso amargo ao seu rosto. Ainda assim, ver aquela coisa de pé ali fez com que ele ficasse um pouco nervoso. Isso e o fato de que quando o rádio fazia barulho, provavelmente havia um monstro por perto.

Ele deu alguns passos cautelosos para frente para dar uma olhada mais de perto no manequim. Seu corpo estava curvado e em uma posição que parecia quase… obscena. Primeiro ele pensou que havia algo estranho com os braços, mas agora o que ele podia ver era que, na verdade, não havia braços. Na cintura do manequim, onde o torso deveria começar, estava um outro par de pernas que não tinham pés. Esses membros extras estavam ambos dobrados e torcidos em posições anormais. O manequim tinha um estilo surreal, quase de uma forma artística estranha. Mas por que ele não usava nenhuma roupa?

Subitamente, ele se moveu. Contorcendo suas pernas extras, o corpo do manequim começou a oscilar para trás e para frente. Os olhos de James se arregalaram, aterrorizados. Essa coisa não era um manequim. Era outro monstro. Apesar de ter uma forma diferente da dos monstros de antes que se contorciam, ele não tinha dúvidas de que eles estavam relacionados de alguma forma. Estranhamente, ele percebeu que ser confrontado por esse ser grotesco não trazia à tona os mesmos sentimentos de ódio e nojo que os outros monstros provocavam. Apesar disso, se ele representasse metade do perigo que os outros representavam, ele não queria ficar por perto.

Deixando a criatura manequim para trás, James deu a volta e correu para o corredor principal do segundo andar. Porém, sua lanterna também iluminou uma figura deitada no chão que se contorcia de uma maneira muito familiar. Essas coisas realmente estavam se espalhando nessa cidade. Primeiro elas tinham infestado as ruas, agora elas tinham se espalhado pelo edifício de apartamentos. Ao menos isso explica por que ninguém atendeu a porta. Os moradores provavelmente estavam todos enfiados em seus quartos, se escondendo dessas horríveis criaturas que vagavam pelos corredores. Ou teriam todos eles fugido como a pessoa do apartamento 205?

Estava ficando claro que o segundo andar não era um bom lugar para se estar naquele momento. Indo para a escadaria à sua esquerda, ele começou a andar rumo ao terceiro andar. Ele hesitou por um momento. O que ele faria se houvessem monstros no terceiro andar, também? Ele deveria apenas tentar sair do edifício? Mas se ele fizesse isso, ele teria que considerar a possibilidade de deixar também Silent Hill. Ele tinha ido tão longe, o mínimo que ele podia fazer era continuar tentando. Ele abriu apenas um pouco a porta para o corredor do terceiro andar e cuidadosamente tentou ouvir quaisquer sinais de monstros vagando por ali. Ele não tinha certeza… mas tudo parecia silencioso.

Quando ele abriu a porta e adentrou o corredor, ele viu que grande parte da área estava bloqueada por uma porta de metal que dividia o corredor. Ela parecia um pouco deslocada ali. Teria ela sido instalada como medida de segurança, ou colocada ali para afastar os monstros invasores? Se o outro lado daquelas barras fosse um lugar seguro, existia uma boa chance de Mary estar lá com os outros moradores. Agora que ele pensou nisso, James desejou que ele estivesse lá também – qualquer lugar era mais seguro do que aquele. Ele tentou chamar o nome de sua esposa através das barras, mas ainda não havia resposta. Por mais preocupado que ele estivesse com a segurança de Mary, não havia como ele passar por aquela porta.

Se virando, ele viu um pequeno corredor no qual haviam duas portas alinhadas lado a lado. Ele podia muito bem checá-las. Não é como se eu tivesse outro lugar para ir, James pensou. A porta para o apartamento 302 não abriu, mas a do 301 estava destrancada. Porém, o apartamento estava completamente vazio. Sem móveis, sem nada. Ao invés disso, um solitário carrinho de compras jazia abandonado no meio da escuridão vazia. O que uma coisa dessas estava fazendo aqui? James o encarou com um pouco de suspeita – afinal, era a última coisa que ele esperava encontrar nesse apartamento. Ele avistou algo brilhante refletindo a luz de sua lanterna. Chegando mais perto, ele olhou o interior do carrinho de compras.

Era uma arma.

James e pegou e examinou. Ele mal podia acreditar na sua sorte. Não só a arma estava totalmente carregada, como havia uma caixa com balas reservas nas proximidades. Um sorriso complacente surgiu em seu rosto. Isso era exatamente o que ele precisava. Nada mais de correr e se esconder toda vez que um monstro cruzasse seu caminho. Colocando as balas extras no bolso de seu casaco junto com o rádio, ele começou a elaborar um plano. Agora que eu tenho uma arma, eu posso continuar investigando o segundo andar. Agarrando a fria arma, James deixou o apartamento 301.

Refazendo seus passos através do sombrio corredor, ele encontrou seu caminho de volta para a porta da escadaria. Antes que ele a abrisse, ele avistou algo na seção bloqueada do corredor. Como ele não tinha visto antes? Sob a luz de sua lanterna, ele viu um pequeno objeto caído no chão logo do outro lado das grades. Era uma chave, caída perto o bastante para que ele fosse capaz de pegá-la se ele se esticasse o bastante. Talvez ela abrisse aquela porta? Ele passou sua mão por debaixo da grade e apalpou as sombras para encontrar a chave. As pontas de seus dedos tocaram em algo frio.

Esticando seu braço o mais longe que pôde, James tentou puxar a chave para mais perto. Só mais um pouco…

De repente, James sentiu a presença de outra pessoa. Antes que ele pudesse ver o que estava acontecendo, um tênis surgiu na frente de seus olhos e com um golpe magnífico chutou a chave para o outro lado do corredor.

“Hey!” Seu grito se transformou em um lamento de dor quando o pé aproveitou a oportunidade para pisar em seus dedos. Tomado pela raiva, James se virou para o brincalhão. Do outro lado das grades, ele viu as costas de uma criança na idade da escola primária enquanto ela fugia, com sua risada ecoando pelo corredor.

“Idiota!” Ela insultou James uma última vez antes de desaparecer.

“Hey, volte aqui!” Mesmo se a garota o tivesse ouvido gritar, ele duvidava que ela voltaria. “Maldição…”

James praguejou baixo enquanto puxou sua mão dolorida de debaixo da porta de metal. Que pirralha irritante.Mas de certo modo, vê-la era uma notícia um pouco boa. Ela era a prova que deviam haver pelo menos algumas pessoas se escondendo na parte bloqueada do terceiro andar. A aparição da garota foi o bastante para manter viva a possibilidade de que Mary estivesse bem. A despeito da dor em sua mão e da raiva contra a pequena garota, um sorriso retornou ao rosto de James. Não perdendo mais tempo, ele começou seu caminho de volta para o segundo andar.

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Um violento grito quebrou o pesado silêncio perto da intersecção dos corredores do segundo andar. Apesar do som vir do corredor que ia para o norte, o grito soou levemente abafado, como se ele tivesse vindo do andar superior. O primeiro pensamento que veio à mente de James era Mary, mas então ele relembrou a imagem da pequena garota fugindo.Por mais irritante que ela tenha sido, ele certamente não a odiava o bastante para desejar que ela tivesse sido atacada por um monstro. Ele não podia desejar esse tipo de morte para ninguém.
Correndo na direção dos gritos, James mais uma vez ficou frente-a-frente com um monstro que bloqueava o corredor norte. Sem hesitação, James mirou sua arma na direção da criatura.

“Saia  do meu caminho!”

O monstro distorcido gritou e se encolheu quando uma chuva de balas perfurou seu corpo, espalhando gotas negras de sangue nas paredes. Nesse momento, James sentiu uma onda de euforia. Não havia mais necessidade de se virar e fugir; ele finalmente podia manter sua posição e lutar. Apesar desse monstro ser seu inimigo e ele não discordar que ele o queria morto, ele não considerava suas ações como “assassinato”. Não, isso era diferente. Parecia mais como se ele estivesse tomando as rédeas da situação, como se ele finalmente tivesse a vantagem.

Passando por cima do cadáver da criatura, a qual agora estava estirada imóvel sobre uma poça de sangue, James se apressou pelo corredor.
Seu coração se afundou, porém, quando a luz de sua lanterna iluminou outra porta bloqueando seu caminho. Logo do outro lado, ele podia ver uma escada que sumia nas sombras. Aquele tinha que ser o caminho para a parte principal do terceiro andar… Agindo impulsivamente, James se virou e girou a maçaneta da porta mais próxima da que bloqueava seu caminho. Felizmente, a porta estava destrancada. Ele a abriu e adentrou o apartamento número 208.

Esse apartamento era adjacente ao apartamento 209, que se localizava do outro lado da barreira. Se ele pudesse de alguma forma quebrar a parede que separava os dois apartamentos, ele seria capaz de chegar à escada. Esse era o plano de James, de qualquer forma. Correndo da sala de estar para o quarto, ele foi capaz de encontrar a parede mais ao norte. No meio da parede havia um enorme objeto retangular. Parecia ser um grande relógio antigo. James o empurrou para fora de seu lugar, o relógia se movia facilmente sobre o chão encarpetado.

“Mas o que…”

Ele olhou para a parede, boquiaberto. Havia um buraco na parede atrás do relógio. Esse edifício… mesmo que ele parecesse bonito do lado de fora – os apartamentos estavam caindo aos pedaços. O proprietário deveria ter uma renda realmente baixa se precisou usar o relógio para cobrir o buraco na parede até que ele pudesse ser consertado. Felizmente eles nunca o fizeram. Agora James não teria que gastar sua energia quebrando a parede.

Emergindo novamente no corredor, James correu para as escadas que levavam ao terceiro andar. De onde aquele grito tinha vindo? Com poucas opções restantes, James resolvou checar todos os apartamentos. Como no primeiro andar, todas as portas pareciam trancadas até que ele chegou até a porta do apartamento 307. James parou, e colocou sua mão na maçaneta. Ele mal conseguia ouvir o som que vinha do interior do apartamento. Abrindo a porta cuidadosamente, ele entrou. Em um primeiro momento ele não podia ver nada lá dentro, apesar do ruído continuar. Qualquer que fosse a fonte, ela era o bastante para fazer o chão tremer.

“Mary….?”

O nome de sua esposa soou quase como um sussurro graças a respiração presa em sua garganta. James ficou paralizado. No momento em que ele percebeu uma sombra se movendo na parte de trás da sala, não havia mais tempo para escapar. Nesse momento, a porta aberta de um armário chamou sua atenção e ele se escondeu rapidamente dentro dele. Ele realmente não queria olhar, mas não podia evitar.
Tremendo, James espiou pelas frestas da porta do armário.

Na escuridão, ele pôde ver a forma de três monstros que pareciam estar envolvidos em uma espécie de luta. Dois deles eram as criaturas manequim que ele tinha encontrado no corredor, mas o terceiro era diferente. Ele era completamente diferente dos outros. Era um homem alto, e parecia ter uma enorme cabeça triangular que era da cor marrom escura e vermelha. A ferrugem corroera o metal como se ele tivesse incontáveis anos de uso e danos.

Era um demônio. Ao menos, foi o que James pensou. Um demônio vermelho… um monstro… As palavras impressas no artigo do velho jornal resurgiram em sua mente. Seria esse o mesmo terror que Walter Sullivan sentiu quando ele viu essa criatura bizarra? Certamente essa coisa tinha a aparência apropriada para ser chamada de demônio. Diferente dos outros monstros, essa criatura vestia um robe encardido e usava botas negras de cano alto.

Por mais que os manequins lutassem para se soltar, eles eram dominados pela força do monstro pirâmide. Com seus largos músculos ele foi capaz de arrancar a vida das criaturas tão facilmente quanto de crianças indefesas. Agora tingidas por seus próprio sangue, as duas foram casualmente descartadas sobre o chão. Nenhuma delas se moveu. A visão dos dois cadáveres distorcidos causaram um calafrio na espinha de James, enquanto gotas de suor frio desciam por seu rosto.

Subitamente, como se sentisse sua presença, a criatura pirâmide lentamente virou sua cabeça angular na direção das portas do armário. O coração de James começou a bater mais forte. Ele ficou tão distraído pela horrível cena que se desenrolava na sua frente que não tinha notado os ruídos de estática que eram emitidos por seu rádio. Ele enfiou a mão freneticamente em seu bolso e desligou o rádio.

Sentando-se no armário, completamente paralizado e nem se quer ousando respirar, James silenciosamente rezou para que a criatura não o tivesse notado.

O silêncio aterrorizador foi quebrado pelo som pesado de passos que fizeram o chão de madeira ranger. Aquilo estava vindo na direção do armário. James não podia fazer nada além de manter sua arma apontada. O som da respiração áspera e metálica vinha logo do outro lado da porta e o pequeno espaço foi rapidamente preenchido com o fedor de carne apodrecida. Não tem jeito de eu sobreviver a isso. Não tem jeito nenhum. James aperou a arma mais forte em suas mãos trêmulas. Se a vitória vai para aquele que faz o primeiro movimento…

Por um momento, seu desespero se transformou em determinação. James puxou o gatilho, disparando cegamente na direção do monstro. Quando acabarem as balas, eu vou morrer, ele pensou tristemente entre os disparos ensurdecedores. Que esperança ele realmente tinha de matar esse monstro maciçamente forte? No mínimo, ele só iria deixá-lo nervoso. Ele iria livrar-se das balas como se fossem mordidas de mosquito e iria destruir a porta a qualquer segundo. E então James seria o próximo a se juntar à pilha de cadáveres. Eu vou morrer. Esse pequeno armário empoeirado pode muito bem ser meu caixão.

E então o momento chegou. Os disparos cessaram, e o silêncio caiu sobre a sala. James quase pensou poder ouvir o barulho das asas do anjo da morte vindo buscá-lo… mas o silêncio apenas continuava. Não havia passos, nem respiração, nada. Ele está morto…? Eu realmente consegui matá-lo? Confiando nessa esperança vã, ele espiou pelas frestas da porta. A sala parecia vazia. Ele abriu a porta da forma mais silenciosa que pôde, quase sem respirar, enquanto olhava melhor. O monstro pirâmide havia partido.

Agora que ele pensou nisso, enquanto ele estava enchendo a criatura de balas, ela tinha uivado como se fosse um grito de dor… Talvez ela tivesse ficado com medo da arma e fugiu? James não ficou totalmente satisfeito com nenhuma dessas explicações. Ele não conseguia acreditar nessa vitória improvável. Parecia muito improvável que o monstro tivesse fugido, observando com a porta da frente continuava fechada. Era como… se ele só tivesse desaparecido da sala, como fumaça. Quando James sentou-se exausto no chão, seus olhos caíram sobre os manequins massacrados. Uma poça vermelha escura se espalhava pelo chão debaixo de seus restos mutilados. Ele percebeu que mesmo depois de ter escapado por pouco da morte, ele não sentia nenhum alívio.

Com o corpo duro e passos irregulares, James deixou o apartamento 307. Por que… por que eu estou vendo todas essas coisas? Ele caminhou pelo corredor escuro do terceiro andar, seu rosto ainda estava pálido. Ele parou. No chão, aos seus pés, estava a pequena chave. A chave que aquela pirralha chutou para longe.Para confirmar, quando ele iluminou o resto do corredor com sua lanterna, ele pôde ver a tela de metal que tinha bloqueado seu caminho antes. Onde estaria aquela garota agora? Mary não estava em lugar algum do terceiro andar. Não havia pessoa alguma ali. James tinha corrido para lá como algum tipo de aspirante à herói, apenas para descobrir que a “pessoa” que ele tinha vindo salvar era um casal de manequins morrendo.

James desceu as escadas. Ele tinha sido distraído pelos gritos do terceiro andar antes, mas agora ele ao menos podia continuar sua investigação. Usando a luz de sua lanterna, ele recarregou a pistola usando a caixa de balas reserva. Ele também se lembrou de ligar o rádio novamente. Logo ele estava de volta ao local onde havia começado: o hall de entrada do primeiro andar. Da última vez em que ele esteve aqui ele pensava que as pessoas ainda viviam no local, mas agora ele tinha quase certeza de que o edifício estava abandonado. Ao menos agora ele não tinha que se preocupar em ser pego invadindo o apartamento de alguém.

James imediatamente percebeu que a porta do apartamento 101 estava entreaberta, apesar dela estar trancada da última vez que ele tinha checado. Cautelosamente, ele abriu a porta e olhou o lado de dentro. O apartamento parecia estar vazio.Porém, ele foi recebido com uma visão desagradável quando sua lanterna iluminou a pequena cozinha. Era um cadáver. James quase tinha se acostumado com a visão de monstros mortos… mas mesmo com o corpo gravemente espancado e a face escurecida por sombras, esse era claramente um humano.
Enquanto James ficava em choque, ele ouviu um gemido de dor vindo da porta do banheiro. Soava como uma pessoa… mas novamente, os gritos dos manequins soavam como uma pessoa, também. Talvez fosse o monstro que matou o morador desse apartamento? Não havia jeito dele derrubar a porta do banheiro e descobrir. Ele não era estúpido o bastante para cair no mesmo truque duas vezes. Ainda assim…
isso não era algo que ele podia ignorar. Caminhando silenciosamente até a porta, James aproximou seus ouvidos e prestou atenção em qualquer som que pudesse vir do interior do banheiro.

“Merda, merda, merda! Eu… Eu….” Uma voz masculina murmurou.

Então era uma pessoa, afinal.
Mesmo que não fosse Mary, talvez ele tivesse alguma informação útil sobre ela. James abriu a porta do banheiro e encontrou um homem gordo ajoelhado no chão. Segurando o vaso sanitário com força, ele vomitou dentro do bojo até que seu estômago estivesse vazio e ele pudesse apenas tossir violentamente.

“Uhhh, olá. Você está bem?” James perguntou.

O homem olhou por cima de seu ombro com seu rosto redondo. Ele usava um boné de beisebol virado para trás em sua cabeça, e parecia ser um pouco mais novo do que James. Com terror em seus olhos, o homem balançava sua cabeça para trás e para frente. “Não fui eu, eu juro!”

“O que?”

“Eu não fiz nada. Ele já estava daquele jeito quando eu o encontrei! Eu só… só…”

“Está tudo bem, se acalme.” James se ajoelhou ao lado do homem e colocou a mão em suas costas, tranquilizando-o. Parecia que o homem tinha entendido errado suas intenções. James não sabia bem as circunstâncias, mas o homem estava agindo defensivamente como se James fosse alguém que estivesse ali para prendê-lo. “Você não precisa se preocupar, eu sou só um turista. Meu nome é James. James Sunderland. Qual é o seu nome?”

“Eddie…” o homem murmurou no mesmo tom asssustado.

“Certo, Eddie,” James disse, acenando com a cabeça. “A… pessoa na cozinha. Você o conhecia?”

“N-não! Eu não fiz nada! Eu não sou assassino!” Eddie balançou sua cabeça furiosamente mais uma vez.

“Certo, certo, eu entendi, Eddie. Eu não acho que você matou ninguém. Você parece estar em choque, e eu estava um pouco preocupado. Foi só uma pergunta.”

“Eu não matei ele… Eu…”

“É claro que não matou. Provavelmente foi um daqueles monstros – talvez os estranhos que se contorcem, ou um daqueles que se parecem com manequins. Talvez seja a coisa-pirâmide vermelha.”

“Uma coisa-pirâmide vermelha? Eu não sei nada sobre isso. Honestamente. Mas eu realmente vi algumas criaturas estranhas. Elas me assustaram muito, então eu corri para esse prédio para me esconder.”

Suas palavras desapontaram James. Depois de todo esse tempo ele tinha finalmente encontrado uma pessoa com quem conversar, e ele não era um morador do prédio. Mesmo se as chances de obter alguma informação sobre Mary fossem pequenas, talvez ele conseguisse algumas respostas sobre Silent Hill. “O que exatamente aconteceu nesssa cidade?”

“Eu não sei. Eu não sei de nada. Eu nem mesmo moro nessa cidade.”

“O que? Você também?” James deu de ombros. “Bem, então por que você está aqui?”

“Umm… bem…” Eddie hesitou. Parecia que ele não queria falar sobre aquilo.

“Tudo bem então. Mas melhor você se apressar e sair daqui. Há algo errado com esse lugar.”

“S-sim… Eu farei isso.”

“Tenha cuidado, certo?”

“Certo. Você também, James.” Ao menos Eddie parecia ter se acalmado. O medo havia deixado seu rosto, e alguma cor tinha retornado ao rosto pálido quando ele partiu.

Depois de tudo, James não foi capaz de encontrar Mary em lugar algum do prédio. Porém, havia outra opção. Quando passava pelo jardim, James notou outro edifício adjacente ao Woodside do lado oeste. Ao invés de enfrentar a Rua Katz infestada de monstros de novo, ele decidiu procurar por um atalho. Os dois edifícios eram tão próximos, tinha que existir um jeito de passar de um para o outro de algum modo. Talvez ele pudesse encontrar uma janela em um apartamento no segundo andar?

Sem perder tempo, James subiu para o segundo andar e avançou para o fim do corredor do lado oeste. Por sorte, a janela do outro prédio também parecia estar faltando. Se apoiando, James saltou pela janela, caindo pesadamente e rolando no chão do apartamento adjacente.
Tão logo ele saiu do apartamento e entrou no corredor, James se viu frente-a-frente com outra criatura semelhante à um manequim. Sem surpresa, os montros insfestavam esse prédio, também. Apontando sua arma sem medo ou hesitação, James abriu fogo contra o manequim até que ele caísse sem vida no chão. Mais uma vez, ele sentiu a satisfação de derrotar outro monstro. Porém, James teria que se forçar a evitar conflitos desnecessários para conservar munição. Agora mesmo, o número restante de balas reservas era baixo demais.

Chegando ao fim do corredor do segundo andar, James desceu as escadas. No apartamento 109, uma inesperada reunião esperava por ele. O apartamento estava quase completamente vazio, com um grande espelho em uma das paredes, como se fosse um estúdio de balé – isso, ou a pessoa que morava nesse apartamento era particularmente narcisista. Uma mulher estava deitada no chão no meio do quarto com o espelho. Como uma criança brincando com um brinquedo, ele segurava uma afiada faca de cozinha em suas mãos, com a qual ela esfaqueava o chão em uma repetição monótona. O rosto refletido no espelho era familiar – era a mulher que ele tinha encontrado no cemitério. Notando o reflexo de James, a mulher falou.

“Oh, é você,” ela disse com indiferença. Com sua voz fraca e olhar vazio, ela parecia uma pessoa completamente diferente daquela que ele havia encontrado antes.

“Sim. Meu nome é James.”

“Eu sou… Angela. Angela Orosco…”

“Angela, huh? É um belo nome.” James se dirigiu à ela da forma mais gentil possível. O modo que Angela olhava tão atentamente a faca enquanto a enterrava no chão de novo e de novo… parecia que ela queria muito se matar. “Então… o que você está fazendo aqui?”

“Procurando a minha mãe.”

“É mesmo? Eu achei que você estivesse saindo da cidade, antes. Você não a encontrou ainda?”

“N-não, eu…”

“Sua mãe mora nesse prédio?”

“Eu não me lembro…”

“Então tudo o que você sabe é que ela vive nessa cidade?” Ela é como eu… correndo pela cidade procurando por alguém com pistas mínimas para continuar… James sentiu simpatia pela situação dela.

“É isso?” Subitamente, Angela se ergueu e encarou James com um estranho brilho em seus olhos anteriormente vazios. “Como você sabe disso!?” Ela gritou, com sua expressão se tornando feroz.

“O que você quer dizer?” James perguntou, intrigado pela reação dela. Angela segurou a faca mais apertada. A lâmina estava desconfortavelmente próxima…

“Como você sabe que a minha mãe mora nessa cidade?!”

Então esse era o motivo. Cara, é melhor eu tomar cuidado com o que digo. Parece que ela realmente me mataria se tivesse a chance. Sem dizer nada sobre esses pensamentos, James respondeu “Eu só pensei que já que você está procurando por ela aqui, sua mãe vivia aqui. Qualquer um podia ter pensado isso…”

“Sim… Eu acho que você está certo…” A hostilidade desapareceu de seu rosto, e Angela caiu novamente em seu comportamento letárgico.

“Não é por isso que você está aqui?”

“Eu… Eu não sei…”

“Então por que vir para Silent Hill, em primeiro lugar?” Com a pergunta de James, Angela olhou para o chão.

“Por que você está nessa cidade?” Angela evitou a pergunta respondendo com outra pergunta.

James pensou que sua busca por Mary fosse um assunto particular, então respondeu vagamente, “Eu estou procurando por alguém.”

“Você já encontrou?”

“Não.”

“Nenhum de nós…”

“É, eu acho que nós estamos presos na mesma situação…” James murmurou. Subitamente, ele descobriu que não poderia mais conter as emoções que eles começaram a compartilhar. “Isso não é tudo. Ela, minha esposa Mary, ela está… Morta há algum tempo. Mas eu… Eu realmente quero acreditar que ela ainda está viva. Que ela está vivendo em algum lugar dessa cidade. Eu recebi essa carta dela. Se ela estivesse realmente morta, como ela poderia ter me enviado essa carta?!”

“J-James…”

“Desculpe. Eu só… Eu só precisava contar para alguém.”

“Eu espero que você a encontre.”

“Obrigado. Eu espero que você encontre sua mãe.” Talvez um pouco da paixão de James a tivesse tocado, por que Angela parecia ter recuperado um pouco de humanidade. Ela até mesmo conseguiu sorrir.

“Eu não vou desistir. Eu vou procurar por ela em todos os lugares se for preciso.” Angela se levantou e ficou de frente para James.

“Vamos juntos. Eu posso te proteger, e você não vai mais precisar carregar isso. Além disso, essa faca não combina nada com uma jovem como você.” James disse alegremente, gentilmente fechando suas mão ao redor da mão dela que segurava a lâmina afiada.

“Não me toque!” O grito histérico dela feriu seus ouvidos. Ela se afastou e apontou a faca para ele, ameaçadoramente. Porém, ela rapidamente caiu em si. “E-eu sinto muito… está tudo bem. Eu vou ficar bem… sozinha.”

“Mas-“

“O que? Você está preocupado comigo? Acha que eu vou me matar?” Angela olhou para a lâmina brilhante como se estivesse enfeitiçada.

“E… t-talvez você esteja certo. Enquanto eu tiver isso… seria… tão fácil…”

Apressadamente, como se quisesse a coisa fora de sua mão o mais rápido possível, Angela jogou a faca em cima de uma prateleira. Correndo para a porta, ela saiu para o corredor. James não a seguiu. Claramente ela tinha alguma grave fobia social. Para ela, provavelmente seria mais assustador estar com outra pessoa do que vagar pelos corredores infestados de monstros sozinha…

James acabou avistando uma fotografia que tinha caído no chão onde Angela estava deitada. Alguém tinha rasgado a foto em pedaços, porém. Olhando para os pedaços espalhados, parecia ser uma foto de Angela com sua família.

—————————-

A medida que um apartamento após o outro ia se revelando vazio ou trancado, a confiança de James começou a diminuir. Mary realmente disse algo sobre os Apartamentos Woodside quando ela falou pelo rádio?
A memória já estava se tornando vaga. Talvez ele tivesse ouvido mal e isso tudo fosse só uma perda de tempo. Ou talvez… a voz nem mesmo fosse de Mary, em primeiro lugar. Não, isso não pode ser! James se recusou a manter tais pensamentos terríveis. Mary tinha que ter estado ali em algum momento, mas ela fugiu antes que ele a encontrasse. Talvez ela tenha fugido para escapar dos monstros.

Quer ela tivesse vivido no prédio ou apenas estalo ali por um momento, James não podia simplesmente sentar e esperar. Talvez ele devesse retomar seu plano original de encontrar o “lugar especial” que a carta mencionou. Mesmo se isso fosse um esforço inútil… talvez uma parte dela ainda estivesse vagando naquele lugar, mesmo depois de todo esse tempo.
Deixar o prédio se mostrou difícil, já que todas as portas estavam completamente trancadas, incluindo a porta da frente. Não importa o quão forte ele as chutasse e empurrasse, James não conseguia abrir a porta. Ele não teve escolha a não ser vagar pelo local e ver se encontrava uma porta dos fundos. No segundo andar, ele passou por uma porta com a inscrição “escadas de emergência”, a qual, felizmente, estava destrancada. Ele adentrou aquele local que estava mergulhado na escuridão.

Água de um cinza pálido. James piscou os olhos, confuso. Quando ele iluminou com sua lanterna as escadas que deveriam descer… ele viu uma piscina de água cinza escura que enchia toda a extensão da escada até o segundo andar. O que poderia ter feito com que a água inundasse um andar inteiro? Talvez os monstros tivessem quebrado um cano de água? De qualquer modo, essas escadas eram inúteis agora. Desencorajado, James se virou para retornar ao corredor. A maçaneta não girava. Ele estava preso.

Um rugido baixo ecoou do canto mais distante do lugar e fez o sangue de James congelar. Era um som que ele tinha ouvido não muito tempo atrás. A cor rapidamente foi drenada de seu rosto, e James começou chutar a porta freneticamente e a puxar a maçaneta em uma desesperada, mas inútil, tentativa de fugir.
Relutantemente, ele se virou, com as pernas tão fracas que ele mal podia sentir o chão embaixo de seus pés. A luz da lanterna revelou uma enorme figura se arrastando nas sombras. Era o demônio que ele tinha encontrado no apartamento 307. O demônio vermelho.

Aos pés da criatura estava o cadáver recente de um monstro sem braços. Assim como os manequins de antes, seu corpo estava mutilado e quebrado quase além do reconhecimento. Tendo terminado de lidar com sua última vítima, o monstro pirâmide lentamente virou para encarar James. Por causa de sua cabeça bizarra, James não podia ler a expressão da criatura, mas ele podia facilmente imaginar ela sorrindo alegremente com a chegada de uma nova presa.

Enquanto o cabeça de pirâmide caminhava sobre o monstro morto e se aproximava, um alto, e metálico rangido preenchia o lugar. Seus movimentos eram lentos e difíceis, como se ele estivesse carregando algo muito pesado. Com a luz iluminou a enorme e sinistra coisa que a criatura estava segurando, James quase teve um ataque insano de riso. Isso com o que ele estava lidando não era humano. Com a facilidade de um levantador de peso Olímpico, o monstro carregava uma massa enorme de aço. Ele estava carregando uma faca absurdamente grande. Um golpe daquela lâmina massiva certamente seria o suficiente para cortar James completamente ao meio.

Diante de seus olhos espantados, o monstro levantou lentamente a enorme arma acima de sua cabeça com seus braços musculosos. Parecia que a faca era tão incrivelmente pesada que mesmo aquele monstro gigante estava tendo diculdade em manejá-la. Foi aí que James encontrou um raio de esperança. Se havia uma forma de ganhar, ele tinha que tentar. James foi capaz de derrotar essa coisa antes. Ele podia fazer isso de novo.

Um duro som metálico atravessou o lugar quando a espada errou seu alvo e se chocou contra a parede de concreto. Depois de se esquivar por pouco do ataque, James correu para trás do monstro e abriu fogo. Mesmo quando uma chuva de balas penetrou em suas costas, a monstruosa criatura mal pareceu sentir.  Ela nem mesmo ficou mais lenta depois que ele descarregou o pente inteiro da arma de fogo. James caiu sobre seus joelhos em desespero, com a pequena esperança que ele tinha desaparecendo. Mesmo ele ainda possuindo uma munição reserva em seu bolso, seria completamente inútil recarregar agora. Aquela faca estaria cortando fora sua cabeça antes que ele pudesse disparar outro tiro.

Estranhamente, mesmo nesse estado desesperador, James não sentia medo. Na verdade, era como se seus instintos de preservação tivessem sido completamente desligados, e tudo que ele sentia agora era paz. Nessa mentalidade de auto-abandono, James abaixou sua cabeça, fechou seus olhos, e silenciosamente esperou o toque frio da lâmina do executor. Ele podia ouvir o som de pequenas ondas, como aqueles da margem do Lago Toluca. Soava exatamente como anos atrás quando ele e Mary passaram aquele dia despreocupado só observando o lago juntos.

Estaria ele ouvindo coisas? Ficando impaciente com sua morte iminente, James abriu seus olhos. Ele não estava imaginando coisas – o som da água vinha das escadas inundadas. Ao invés de aproveitar a oportunidade de matar James, o monstro pirâmide estava descendo as escadas cobertas pela água cinzenta. Tudo que ele podia ver da criatura eram suas costas perfuradas pelos tiros. Lentamente a resposta veio até ele. Eu… eu ganhei? De novo…? Apesar dele não ter sido capaz de matar a criatura de forma definitiva, ele ao menos tinha ferido ela o bastante para forçá-la a se retirar mais uma vez.

Deixando escapar um enorme suspiro, James caiu no chão, de pura exaustão. Ele estava rapidamente perdendo as contas de quantas vezes tinha escapado da morte por pouco em apenas um dia. Redemoinhos de sangue se misturaram com a água escura enquanto a água na escada inundada começou a ser drenada com um rugido parecido com o de um trovão. Através dela emergiu uma porta dos fundos anteriormente oculta.

O som de uma jovem criança cantando surgiu da névoa. A porta dos fundos na escada inundada levou para um beco atrás do edifício que ia em direção à Avenida Nathan. A alegre música se misturava em alguns momentos com risadas inocentes.

“É você!” James não pôde evitar levantar a voz quando ele viu o rosto familiar da criança. Sentada no topo de uma parede de tijolos estava uma jovem garota lendo um pedaço de papel desdobrado. “Você é aquele pirralha que pisou na minha mão lá no corredor!”

A garota piscou, surpresa, e encarou James por um momento. Com um leve sorriso em seu rosto, ela disse, “Eu não sei do que você está falando.”

A expressão de James se fechou. Ela realmente pensava que poderia fingir ignorância? Era era realmente uma criança teimosa. “O que você está fazendo aqui, de qualquer modo?” Em uma cidade infestada de monstros, era extremamente perigoso para uma criança andar por aí sozinha. Com atitude atrevida ou não, James não podia evitar se preocupar com a segurança da garota.

A menina, aparentemente sem interesse pela conversa, deu uma resposta que não tinha quase nada a ver com a pergunta. “Você é cego ou o quê? Estúpido.”

“Hey, é uma carta que você tem aí?”

“O que te interessa? Você nunca gostou da Mary mesmo!”

James ficou em choque. Como essa criança sabia o nome de sua esposa? Não, tinha que ser uma coincidência. Ela podia estar falando de outra pessoa chamada Mary.Mas… ela disse isso diretamente para mim. Como se ela me conhecesse ou algo assim…

“Perdedor.” Depois de mostrar a língua para ele e insultá-lo mais essa última vez, a garota escorregou para o outro lado do muro.

“Ei, volte aqui! Como você conhece Mary?! Me diga onde ela está!” Do outro lado do muro ele ouviu o som de passos correndo ficando cada vez mais distantes. James foi deixado olhando para uma parede de tijolos vazia.

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